Lucas Von Opinião

Tira bom, tira mau | Como os clubes vão driblar assédio de rivais aos seus craques?

Dizem que “água morro abaixo, fogo morro acima e jogador quando quer mudar de time ninguém segura”. Nem contrato vigente.
Compartilhe

O ASSÉDIO EUROPEU

Há muitos anos o futebol brasileiro descolou economicamente do europeu. Foi-se o tempo em que Pelé ficava 18 anos no Santos. E o assédio do futebol europeu é, provavelmente, o grande responsável pela queda de qualidade do futebol sul-americano (fato refletido no histórico geral x histórico recente dos duelos no Mundial de Clubes).

Mas a Europa é o sonho de todo atleta, não tem como nossos clubes lutarem contra isso. Além da grana impossível para nossos padrões, os jogadores sonham com a vitrine do velho continente: jogar Champions League, enfrentar maiores estrelas do futebol, morar em países de primeiro mundo, enfim, não tem como evitar. Só resta aos clubes tentar segurar um pouquinho mais essa rapaziada: como o Grêmio vem fazendo com seus talentos, que dificilmente deixam o Tricolor sem alguma faixa no peito – vide Walace, Pedro Rocha ou até mesmo Luan e Everton, que seguem no clube. Ou como o próprio Santos fez com o fenômeno desde a base que atende pelo nome de Neymar Jr.: deixou a Vila com troféus da Copa do Brasil e da Libertadores no armário.

Por outro lado, temos um Vinicius Jr. precocemente saindo do Brasil – o menino sequer era titular no Flamengo – assim como o Paquetá, também do rubro-negro. Casos como o do palmeirense Gabriel Jesus considero um meio termo: ficou muito pouco no time profissional antes de atravessar o oceano, mas pelo menos levantou taça no seu país.

O CANIBALISMO INTERNO

Até aqui só falei o óbvio: é impossível não perder talentos para a Europa e o ideal é segurar esses meninos o máximo que der, pelo menos até uns 21, 22 anos. Mas agora, além desta árdua tarefa de sempre, outro fenômeno está ocorrendo no Brasil: assédio dos próprios rivais nacionais. Flamengo contratando Arrascaeta e querendo Dedé; ambos do Cruzeiro, que por sua vez, fisgou o Edilson do Grêmio ano passado – com proposta irrecusável – e quase tomou o troco agora com o Thiago Neves (que só foi mais fácil segurar porque a proposta do Grêmio não era financeiramente fora da curva). Estes são apenas alguns exemplos, que tendem a se tornar ainda mais comuns devido a injeção de grana que alguns clubes tendem a receber em quantias cada vez mais significativas.

Apesar de diferentes, vejo muita semelhança em todos estes casos em que o clube interessado mexe com a cabeça do atleta. O próprio volante Walace, ex-Grêmio, sofreu assédio forte do Hamburgo (Alemanha) e encurralou o Tricolor Gaúcho com pouquíssimo tempo para negociações (janela fechando). O atleta ligou para o paizão Renato Portaluppi e pediu para ser liberado, pois era seu sonho. Renato falou com dirigentes e cedeu ao pedido. Como manter um atleta no grupo com 2 metros de beiço, frustrado e recebendo, provavelmente, bem menos do que poderia estar ganhando lá fora? Difícil. E como falei, mesmo sendo diferente porque se trata de mercado interno, o caso Arrascaeta é bem semelhante.

O Flamengo ofereceu contrato incrível para o uruguaio, que tinha contrato vigente com Cruzeiro. Mas e aí? Bater o pé e deixar o cara emburrado no time? Talvez deprimido e rendendo pouco e quem sabe até contaminando o grupo? “Ah, mas contrato é contrato“. Sim, sabemos. Mas não é videogame. É gestão de pessoas, bem mais complicado – não à toa Renato é um dos melhores treinadores do país hoje, pois domina como poucos essa arte fundamental no futebol.

TIRA BOM, TIRA MAU

Sinceramente, não sei se tem solução. Mas tenho um palpite pra tentar amenizar o problema: a técnica do “tira bom, tira mau” (good cop, bad cop). Resumidamente, essa técnica é usada em interrogatórios ou negociações para que o policial bom estabeleça um vínculo com o bandido e consiga sua confiança, já que o policial mau o intimida a todo instante. Assim, o bandido busca a proteção do policial bom e acaba cooperando de certa forma. E é isso que eu faria nos clubes. Estabeleceria um tira bom, seja na comissão técnica ou diretoria, e um tira mau. Este último seria o responsável por vetar a negociação, já o primeiro manteria o atleta focado e motivado no clube.

No caso do Grêmio, por exemplo, o tira bom é fácil de saber quem seria: Renato. Walace ligou pedindo pra realizar seu sonho europeu? Legal. Renato lamenta, mas apoia. Deseja boa sorte e diz que vai dar seu aval para a diretoria. Mas de repente vem uma ordem interna para que a venda não seja realizada. Ao melhor estilo “o financeiro não autorizou”. Um setor frio, sem rosto, sem nomes, e aparentemente sem coração, vetou o negócio. Pode ser o financeiro, pois consideraram o valor baixo ou consideraram que o rapaz pode render mais no futuro. Pode ser o setor de análises táticas, alegando que não temos peças de reposição no momento e o time não está preparado, hoje, para essa perda brusca. Pode ser um Presidente malvado. Não sei. Mas o veto teria que vir de alguém com pouca ou nenhuma ligação no futebol. E aí o Renato iria abraçar o menino, enxugar suas lágrimas e prometer: “calma, você tem talento. Outras chances virão. Sei como as coisas funcionam. Te dedica em campo e tudo vai acontecer“.

Lucas von Silveira
TT @lucasvon / IG @lucas_von
fb.com/olucasvon / falavon@gmail.com

Renato é uma referência de técnico paizão na atualidade / Foto: Getty Images

Compartilhe

Você vai gostar disso