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Estádio sem torcida | Bastidores de uma reunião cujo objetivo é acabar com o futebol

Um diálogo fictício que, infelizmente, não está muito longe da vida real
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COMO PENSAM OS MANDA-CHUVAS DO FUTEBOL BRASILEIRO

 

[Reunião entre dirigentes de clubes, CBF, Federação estadual, Ministério Público, Polícia Militar, entre outras entidades que se relacionam com o futebol no Brasil]

 

– Vai ter Clássico semana que vem. Risco de violência.

– A solução é tirar a torcida visitante. Eu sei que o jogo perderá o brilho e a essência, mas fazer o quê? Tira.

– Só que eles brigam nas ruas também, então vamos proibir que cidadãos circulem com roupas de times pelas ruas em dias de grandes jogos. Simples.

– Boa. Mas eventualmente eles brigam em outros dias também. Então vamos proibir que usem roupas de times todos os dias. Infelizmente, é o único jeito. Esconde na mochila e só ostenta no colégio, faculdade, trabalho. Vai ter que ser assim.

– O problema é que muitas vezes eles brigam sem usar camisas dos clubes também. Nesse caso, não há outro caminho: não podemos permitir que as pessoas andem nas ruas nos dias de grandes jogos. Todas as pessoas, em todos os horários. Aí, definitivamente, não há mais risco.

– Só que tem gente que briga em casa também…

– É verdade… (Coçando a testa)

– Aí só nos resta obrigar as pessoas a assistirem aos jogos sozinhas. Proibir que assistam juntas, não permitir aglomerações. Tá aí, resolvido.

– Isso! E, pensando bem, acho prudente eliminar a torcida mandante também: volta e meia brigam entre si. Sem falar que muitos vão querer ir aos estádios andando pelas ruas, e isso já estaria devidamente proibido. Assim a gente evita qualquer tipo de confusão.

– É isso, ninguém sai de casa, cada um assiste aos jogos sozinho e…

– Tá, mas peraí… E se os jogadores brigarem? Volta e meia acontece. Único jeito é proibir o time visitante de ir ao jogo. Deixa só o mandante jogando sozinho. Não tem muito o que fazer.

– Calma lá, você quer tirar os jogadores do jogo? Não é meio demasiado?

– Meu camarada, já tiramos a torcida. Ela faz parte do espetáculo tanto quanto a bola, as traves, os jogadores… Tirar os jogadores não é muito diferente, seguimos na mesma linha.

– Exato. E digo mais: há inúmeros relatos de brigas entre colegas de time. Tanto em treinos, quanto em jogos. Nesse caso, vamos proibir o time mandante de comparecer também. Simples. Chega de tolerar esses absurdos.

– O amigo ali falou em traves: volta e meia algum jogador se acidenta colidindo com as traves. Acho melhor a gente mandar tirar também.

– Perfeito. Apoiado.

– Agora sim, ninguém sai de casa: nem torcedores, nem jogadores. E nem a imprensa, pois não há o que cobrir. Nenhum cidadão pisa na rua nos dias de jogos, mesmo os que nem gostam de futebol. Pronto, não há mais risco de brigas.

– E, caso alguém ainda apareça no estádio por algum motivo – talvez um funcionário da manutenção, sei lá – não terá bandeiras, fumaças, papel picado, nem traves oferecendo qualquer tipo de perigo ao cidadão em questão. Acho que é isso.

– Senhores, parabéns a todos. Creio que chegamos às melhores deliberações e… Que cara é essa, rapaz? Você é o estagiário, né? Quer dizer alguma coisa?

Sim… Entendi os motivos de vocês. Mas o chato é que as pessoas ainda seguirão brigando. Por política, por relações amorosas, pelo trânsito, por mal-entendidos, por esbarrões em festas, por infinitos motivos. A maioria bem idiota.

– Mas pelo menos o futebol vai garantir que em seu território o risco será zero! Os estádios estarão fechados, vazios e no escuro. Nenhuma briga. Nenhuma reclamação de horários ou preços esdrúxulos. Nenhu…

Nenhum pai abraçando o filho. Nenhuma timidez rompida pelo abraço de um estranho. Nenhum menino excluído pela sociedade se sentindo finalmente incluído em algum lugar. Nenhum casal fazendo a festa nas arquibancadas. Nenhuma guerra parando pra ver o Pelé jogar. Nenhum povo se unindo na frente de um televisor…

– Chega, estagiário! Acabou, não adianta espernear. É o fim. Foi bom enquanto durou. Foi lindo. Foi emocionante. Foi transformador. Mas não dá mais: as pessoas brigam.

 

Lucas von
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tirolivre.net


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